O dia parece noite. Para acordar é difícil. Abrir os olhos vira tarefa para James Bond. O barulho dos pingos batendo na janela assemelha-se a música de ninar. Meu corpo está mole, anestesiado, emborrachado. Até para virar o rosto e enxergar o relógio é um esforço imenso.
Contar até dez vira terapia e respirar fundo serve para despertar o cérebro. "Coragem", digo para mim. Penso nas coisas que ainda tenho para fazer durante o dia e nas contas que precisarei pagar no fim do mês. O.K., nuvens, vocês venceram. Consegui sair da cama. E só me custaram 10 minutos e 42 segundos.
Apesar de estar na "terra do sol", em uma "cidade que faz sol os 365 dias do ano", esse friozinho nada comum do Ceará tem me abalado há quatro dias. Será que os anos agora têm mais dias? Coisas de terceiro milênio. Ou de aquecimento global.
O café vira peça fundamental. Graças a ele, não durmo durante as aulas, após o almoço nem durante o trabalho. Céus, essa tal de cafeína está me matando. A minha xícara colorida e feliz me dá náuseas em um dia tão escuro, cinzento. É melhor partir para o bom e velho copo de botequim.
A garagem está inundada. A saída parece uma cachoeira de Pirinópolis. Comprar um bote está na minha lista de compras do próximo mês. Preciso ver se na internet é mais barato e se o frete é gratuito. Afinal, botes, barcos e bóias são peças fundamentais para essa época do ano.
O porteiro Laudenir é uma graça. Com sua capa plástica amarela, cobrindo até os joelhos, sorri enquanto me deseja um bom dia. Penso que rir às seis e meia da manhã é um dom. Respondo-lhe com um leve aceno de cabeça. Qualquer movimento brusco é arriscado.
As gotas caindo completam a sinfonia do pára-brisa. Os pedestres se protegem como podem. Pastas, capas e mãos cobrem suas cabeças. As cores dos guarda-chuvas colorem o cinza do dia.
Muitos não se incomodam em andar com pingos batendo em suas costas. É água, ora mais. Como diria minha avó, ninguém é feito de açúcar. A chuva é para lavar a alma, a mente, as idéias. E levar embora tudo de ruim que existia até aquele momento. Parada no sinal, penso, por um instante, que aquela manhã é diferente. É bonita. É inspiradora.
Por que esse preconceito com dias cinzentos e chuvosos? Ta certo que em dias como hoje não é tão bom ir à praia, correr na Beira-mar ou dirigir, apesar de muitos gostarem. Mas a chuva aproxima as pessoas, inspira romances e insinua intimidades. São dias assim que dá mais vontade de ter alguém do lado.
Moletom. Edredom. Chocolate quente. Filme com pipoca. Filme romântico, claro. Ou de terror. Depois, uma pizza. Meia calabresa, meia portuguesa, por favor. Se em vinte minutos não chegar, você não paga. Tomar vinho, ouvir música romântica.
Vou ligar.
Ele topou.
Estarei às sete horas, na casa dele. O que ele irá aprontar? Será um jantar romântico, com vinho, massas e música lenta? Ou algo mais descontraído, um filme com uma pipoca?
Hoje o dia teve 50 horas, mas parecia ser sempre cinco da tarde. Um minuto durava, na verdade, quatro minutos. As aulas foram cansativas, meu almoço, enjoativo e o trabalho, mais desanimado que funeral. Mas tudo bem. Já estou a caminho de casa e pensando na roupa que usarei hoje à noite.
Larissa Viegas
quinta-feira, 22 de março de 2007
Há de ser ruim
O que há de ser tão ruim,
quanto a voz que briga?
quanto a mão que recusa o braço?
quanto o corpo que dá as costas?
O que há de ser tão ruim,
quanto a mochila no ombro?
quanto o tchau apressado?
quanto a porta batendo?
O que há de ser tão ruim,
quanto a falta da presença?
quanto o sentimento da falta?
quanto a solidão dessa espera?
O que há de ser tão ruim,
quanto o choro prendido?
quanto os maus pressentimentos?
quanto a impossibilidade de contato?
O que há de ser tão ruim,
quanto a angústia que cresce?
quanto a angustia que cresce?
quanto a angústia que só faz crescer?
O que há de ser tão ruim,
quanto o arrependimento pelas palavras?
quanto a dor de não poder desdizê-las?
quanto o frio de dormir só?
Dormir não, tentar!
O que há de ser tão ruim,
Quanto não ter o afeto?
Quanto não ter o beijo?
Quanto não ter o suor?
É por essas e outras, meu amor,
que jamais quero brigar contigo
jamais quero passar essa noite
jamais quero esses sentimentos
Pedro Alves
quanto a voz que briga?
quanto a mão que recusa o braço?
quanto o corpo que dá as costas?
O que há de ser tão ruim,
quanto a mochila no ombro?
quanto o tchau apressado?
quanto a porta batendo?
O que há de ser tão ruim,
quanto a falta da presença?
quanto o sentimento da falta?
quanto a solidão dessa espera?
O que há de ser tão ruim,
quanto o choro prendido?
quanto os maus pressentimentos?
quanto a impossibilidade de contato?
O que há de ser tão ruim,
quanto a angústia que cresce?
quanto a angustia que cresce?
quanto a angústia que só faz crescer?
O que há de ser tão ruim,
quanto o arrependimento pelas palavras?
quanto a dor de não poder desdizê-las?
quanto o frio de dormir só?
Dormir não, tentar!
O que há de ser tão ruim,
Quanto não ter o afeto?
Quanto não ter o beijo?
Quanto não ter o suor?
É por essas e outras, meu amor,
que jamais quero brigar contigo
jamais quero passar essa noite
jamais quero esses sentimentos
Pedro Alves
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